Carta de Aldous Huxley para George Orwell sobre 1984
Acredito que, quem gosta de distopia já leu ou ouviu falar de 1984 e Admirável Mundo Novo, que são dois clássicos do gênero.
Eu tenho um carinho especial por esses livros, que abordam temas extremamente atuais, como a manipulação das massas.
A genialidade dos autores nos concedeu duas obras complexas, mostrando um tipo de manipulação extrema, como a novafala de Orwell e a manipulação genética de Huxley.
Para quem não sabe, Huxley recebeu uma cópia do livro 1984 do Orwell e deu sua opinião sobre a obra em uma carta, que vocês podem ler abaixo:
Caro Sr. Orwell,
Foi muito gentil da sua parte solicitar a seus editores que me enviassem uma cópia de sua obra. Ela foi entregue conforme solicitado enquanto eu estava no meio de um trabalho que requeria muita leitura e constantes consultas de referências de minha parte; e devido à minha visão prejudicada, vejo-me na necessidade de racionar meus momentos de leitura. Foi necessário aguardar um longo período para que eu pudesse embarcar em 1984.
Concordando com o que todos os críticos expressaram até o momento, eu não preciso dizer, mais uma vez, o quão excelente e profundamente importante esse livro é. Permita-me então, falar a respeito do assunto que permeia sua obra – a última grande revolução? As primeiras dicas de uma filosofia da última grande revolução – a revolução que vai além do político e do econômico, e que busca a total subversão da psicologia e fisiologia individual – podem ser encontradas nas obras do Marquês de Sade, que se via como um continuador, um consumador, de Robespierre e Babeuf. A filosofia da dominação da minoria em 1984 é de um sadismo que se carrega além de sua conclusão lógica indo além do sexo e, inclusive, o negando. Porém, uma política de botas-na-cara da população se manter indefinidamente parece duvidável. Minha crença pessoal é de que um governo oligarquista irá encontrar maneiras mais fáceis e de menos gastos de continuar no poder e satisfazer sua sede de poder, e que essas maneiras irão se parecer mais como as que descrevi em Admirável Mundo Novo. Ocasionalmente e recentemente, me encontro pesquisando a respeito do magnetísmo e hipnotismo animal, e, em mais de uma ocasião, me encontro surpreso por, em mais de cento e cinquenta anos, o mundo se recusa a reconhecer a seriedade das descobertas feitas por Mesner, Braid, Esdaille e tantos outros.
Em parte devido ao materialismo predominante e em parte devido ao crescente respeito pelos direitos humanos, os filósofos e homens da ciência do século dezenove não estão inclinados a investigar os estranhos fatos da psicologia para homens como políticos, soldados e policiais e aplicá-los no campo do governo. Graças a ignorância involuntária de nossos país, os adventos da última grande revolução foram atrasados por mais cinco ou seis gerações. Outro incidente de sorte foi a inabilidade de Freud a hipnotizar pacientes com sucesso e sua subsequente desistência da prática. Isso atrasou a aplicação do hipnotismo em terapias por mais alguns quarenta anos. Mas agora, psico-análises estão sendo combinadas novamente com hipnotismo; e a hipnose agora foi facilitada através do uso de substâncias que induzem o estado hipnótico e sugestivo aos mais tolerantes pacientes.
Dentro das próximas gerações, acredito que os governantes mundiais irão descobrir que condicionamento infantil e narco-hipnose são mais eficientes, como instrumentos de opressão, do que prisões e centros de tratamento, e que essa busca por poder pode ser satisfeita ao sugestionar a população a amar sua servitude ao invés de espancá-las e chutá-las à obediência. Em outras palavras, eu sinto que o pesadelo de 1984 está destinado a ser modulado ao pesadelo de um mundo que se assemelha ao que eu imaginei em Admirável Mundo Novo. Essa mudança irá ocorrer pela necessidade do governo de um modelo mais eficiente. Ao mesmo tempo, é claro, é possível a existência de uma guerra em larga escala de frentes biológicas e atômicas – que no caso, nos tratam pesadelos de outros e ainda não imaginados tipos.
Agradeço novamente pelo livro.
Sinceramente, Aldous Huxley.”
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